ENGANADOS

NA ESTUFA

TERCEIRA EDIÇÃO 2021 

Contra as falsas soluções para a mudança climática 

Introdução

Na última década, e desde a última edição deste livreto, temos assistido a um enorme aumento no nível de ativismo para enfrentar a crise do clima. A resistência de Povos Indígenas a projetos industriais destrutivos, impedindo a construção de oleodutos, gasodutos e megabarragens, tem se ampliado em âmbito mundial. Jovens têm se mobilizado contra a inação dos governos, e agricultores têm se unido para barrar políticas que favorecem empresas poluidoras. Mais do que nunca, o centro de gravidade dos movimentos do clima tem se movido rumo a uma narrativa de justice climática – onde não distinguimos entre a guerra global contra a biodiversidade levada a cabo pela ganância empresarial e as guerras contra as culturas, cosmologias, comunidades e corpos de povos oprimidos pelo mundo afora.  

  Um arcabouço de justiça climática não reduz a crise do clima a um quebra cabeças focado simplesmente em contar carbono. Em todo o mundo, movimentos de base, de liderança comunitária, observam a economia como um todo – a exploração da terra, do trabalho e dos sistemas vivos; a erosão do solo, das sementes, da história e do espírito – e buscam trazer à tona soluções reais, presentes ao nosso redor no cotidiano – do Saber Tradicional Indígena, da soberania alimentar, da desmercantilização da terra, da saúde e da moradia, à abolição do complexo industrial militar que visa extrair as últimas gotas de combustíveis fosseis da Mãe Terra.1 Da transição justa e da democracia energética, onde a energia que impulsiona nossas vidas é democratizada, descentralizada, desintoxicada e descarbonizada, à justiça transformativa, onde respondemos à violência e ao trauma com compaixão e cura, não policiamento, punição e prisões.  

 A justiça climática surgiu de lutas globais de base por justiça ambiental, enraizadas em comunidades Indígenas, Negras, Latinas, Asiáticas, de povos originários de ilhas do Oceano Pacífico, migrantes e pobres, e da liderança de mulheres e pessoas de gênero não binário – pessoas primeiramente e mais impactadas por tempestades, enchentes, aumento do nível do mar, incêndios florestais, secas, e o derretimento da calota de gelo na região Ártica. Essas comunidades também têm sido obrigadas a aguentar a maior parte da poluição, pobreza, violência policial e criminalização de defensores da Terra e do Céu causadas pela economia extrativa colonial que impulsiona o caos climático. Assim, a justiça climática prioriza a liderança de base territorial dos povos com o conhecimento de mais longa data dos sistemas ecológicos naturais da Terra, entendendo que tal Saber Tradicional Indígena e o conhecimento ecológico local são centrais para se vislumbrar uma estratégia de longo prazo para lidar com os futuros choques, deslizamentos, pandemias e sobressaltos que venham em nossa direção. 

 A justiça climática prioriza a organização, a ação direta e a tomada de decisões baseada na comunidade por parte daqueles que estão nas linhas de frente da crise, que também estão na vanguarda da mudança. Na essência, pessoas cujos esforços são guiados por princípios compartilhados e uma visão comum de restaurar nossas relações com a Terra e uns com os outros, abraçando relações que cultivam uma visão de mundo descolonizada de respeito, reciprocidade, mutualidade e solidariedade entre todas as comunidades, com o resto do mundo vivente e com a Mãe Terra. 

A justiça climática prioriza a organização, a ação direta e a tomada de decisões baseada na comunidade por parte daqueles que estão nas linhas de frente da crise, que também estão na vanguarda da mudança.

Ao mesmo tempo em que a justiça climática está se tornando uma voz unificadora para as necessidades dos mais vulneráveis, estamos testemunhando um aumento do negacionismo climático, elites políticas autoritárias, e governos patriarcais e supremacistas brancos ao redor do mundo. Estamos deslizando perigosamente rumo a um capitalismo sem lei, em que a ideologia do livre mercado (neoliberalismo) privatizou e atomizou todo e cada aspecto das nossas vidas e da natureza, quase afogando a democracia num balde para que empresas globais e estados nacionais possam se comportar mal com praticamente nenhuma supervisão pública ou responsabilização por suas práticas antiéticas e lucros abusivos. 

 

Também assistimos a uma alarmante tendência rumo à “política do desespero” em alguns setores do movimento climático, onde o capitalismo do desastre oportunista combinado com um reducionismo do carbono míope, a financeirização da natureza e um crescente tecno-utopismo, tem levado à proliferação de esquemas climáticos falsos e seus lucros espúrios. Até o simbólico Acordo de Paris que foi adotado pela ONU em 2015 tem em grande medida servido para possibilitar e impelir uma série de golpes tecnológicos empresariais, mecanismos do mercado de carbono e impostos sobre o carbono falsamente colocados como soluções nos últimos anos.  

 

Também temos visto uma enxurrada de fundos filantro-capitalistas, com tipos feito Bill Gates, Jeff Bezos e Elon Musk se comprometendo a gastar bilhões para combater a mudança climática. Devido a uma crescente tendência de programas de diversidade, equidade e inclusão, uma parte desses fundos está sendo reservada para “equidade racial”. Contudo, observando-se a questão mais de perto, fica claro que a esmagadora maioria desses investimentos está indo para um elenco de ONGs internacionais de elite (que já têm bilhões de dólares em seus cofres) para promover projetos climáticos empresariais, frequentemente às custas de comunidades Indígenas e outras da linha de frente.1 Quem controlar o capitalismo climático global também controlará a economia verde.2 

 

À medida que você for passando essas páginas, você entrará na caixa de Pandora das falsas soluções climáticas, primordialmente projetadas para se lucrar com a crise ecológica global. A maior parte destas pode ser caracterizada como remendos técnicos sem comprovação, tecnologias de emissões negativas, mecanismos de precificação de carbono, elixires empresariais enganosos ou projetos de energia extrema. Todas alegam enfrentar a crise do clima ao mesmo tempo em que evitam os fatores subjacentes que nos fizeram cair nesse lamaçal de início: economias baseadas na ganância e na acumulação; crescimento sem fim; grilagem empresarial de terras; erosão da biodiversidade e exploração da vida.  

 

Ainda que algumas dessas propostas aparentemente futuristas (como espelhos no espaço para refletir a radiação solar) possam parecer criativas e visionárias, na verdade elas são exatamente o contrário. Esses projetos, por mais mágicos que soem, são ideias ilusórias de que a inovação tecnológica vai “consertar” a questão dos limites inerentes de uma Terra finita. Elas refletem uma profunda falta de imaginação – uma inabilidade de imaginar um mundo no qual possamos viver numa “relação correta” com os ciclos vitais naturais de que dependemos.  

 

O que todas essas falsas promessas têm em comum, além de não terem sido testadas nem tido sua segurança e eficácia comprovadas, é que elas surgem a partir de uma visão de mundo definida por doutrinas do descobrimento e da conquista racistas, por fé cega em políticas e tecnologias com base no mercado, por práticas ideológicas de privatização, mercantilização e exploração da natureza que põem um preço no céu, nas florestas, nas águas, oceanos e solos para criar novos mercados de derivativos que aumentam a desigualdade e apressam a destruição de todas as formas de vida. Esta cultura da ganância, dominante e arrogante, presume que a engenhosidade do ganho individual pode se sobrepor à complexidade dos sistemas naturais da Terra que sustentam todas as formas de vida em equilíbrio e harmonia há tanto tempo. 

   

Nesta visão de mundo, nós usamos máquinas para dar significado à vida; a Mãe Terra é coisificada como a mulher é coisificada e tratada como uma máquina feita de peças que podem ser substituídas, redesenhadas ou construídas; o DNA é um código a ser editado e apagado; nossos corpos são motores e o alimento é combustível; o mundo não é visto como um complexo de relações interdependentes, bonitas e sagradas, mas como uma coleção de objetos a serem monetizados e manipulados. Nesta visão de mundo, práticas de ganância, acumulação, roubo e apropriação privada por parte de empresas e estados nacionais constantemente se sobrepõem a valores de cuidado, consentimento, compaixão e responsabilidade coletiva. 

 

Se vamos cocriar e investir nos melhores caminhos de justiça climática para o futuro de todas as formas de vida, precisamos nos inocular contra essas promessas dúbias e perigosas que tiram o foco de onde deveríamos dedicar nosso tempo, recursos e energia: uma transição de economias extrativas globais para economias locais vivas e calcadas em valores compartilhados de reciprocidade, cuidado, dignidade, mutualidade, solidariedade e respeito pela integridade territorial, princípios criativos sagrados e leis naturais da Mãe Terra e do Pai Céu.  

 

Para que tais caminhos estejam alinhados com o arco maior da justiça, precisamos reparar nossas relações com todas as formas de vida e uns com os outros atravessando múltiplas culturas e gerações – começando com as pessoas e ecossistemas que historicamente foram mais afetados. E, ao fazê-lo, precisamos transformar nossas relações, de maneira que tal dano nunca volte a acontecer. 

 

Em consonância com profecias Indígenas, estamos recobrando o sentido da nossa verdadeira natureza humana. Este processo está se disseminando tanto entre comunidades Indígenas quanto entre comunidades não-Indígenas. Esta relação inseparável entre seres humanos e a Terra precisa ser respeitada em nome da vida e das gerações futuras. A Mãe Terra é a fonte de vida que necessita ser protegida, e não um recurso a ser explorado e mercantilizado como “capital natural”, como um “serviço de ecossistema” ou como uma “solução baseada na natureza”. Nós instamos toda a humanidade a juntar nossos corações, espíritos, mentes e corpos para transformar as estruturas sociais, economias, instituições e relações de poder que escoram a nossa privação, opressão e exploração. 

MIOPIA BASEADA NO MERCADO

X

CONSCIÊNCIA ECOLÓGICA

Remendos técnicos empresariais em escala industrial  

Saber Tradicional Indígena e manejo 

Governados por uma concentração de poder elitista e patriarcal

Autonomia adequada, pela base, descentralizada, democrática e horizontal 

Análise reducionista, fixação em componentes individuais 

Consciência de Sistemas Holísticos que busca remediar a causa-raiz 

Servem às diretrizes capitalistas dos mercados globais ditados pelas empresas transnacionais 

Serve a comunidades e ecossistemas, transcende fronteiras coloniais e 
respeita a liderança local 

A concentração de riqueza existente fica protegida dos custos de adaptação e mitigação 

Tem como propósito fortificar a capacidade e autonomia locais 

Definidos por sistemas e práticas uniformes, monoculturais e mercantilizadas  

Definida pela diversidade de projeto e prática localizada e descentralizada 

Subsidiados por donativos e incentivos de políticas nacionais e globais 

Apoiada por recursos e financiamento locais associados à ajuda mútua e à economia solidária  

Inseridos em paradigmas coloniais de crescimento sem fim, apropriação e exploração 

Alinhada com metas de reparação, redistribuição e restauração 

Inseridos em paradigmas coloniais de crescimento sem fim, apropriação e exploração 

Ancorada em conhecimentos ecológicos tradicionais e práticas comprovadas regionalmente com milênios de idade 

×
×

Cart