ENGANADOS

NA ESTUFA

TERCEIRA EDIÇÃO 2021 

Contra as falsas soluções para a mudança climática 

Gás Natural

Promovido por seus apoiadores empresariais como “o menos sujo” dos combustíveis fósseis, o gás natural (metano) ainda é divulgado como um “combustível ponte”, sob a alegação de que ele pode ser uma “alternativa” limpa ao carvão mineral e ao petróleo. Contudo, evidências de vazamentos de metano ao longo de toda a cadeia produtiva, do poço até a queima, demonstram como o gás natural está contribuindo para a mudança climática. Ademais, mesmo se o vazamento de gás não fosse uma realidade, o gás natural já deixou de ser mais barato que a energia eólica e solar do outro lado da tal ponte.1 À medida que a indústria vai sendo pressionada por grupos de justiça ambiental, intensifica-se a expansão e a diversificação das falsas soluções ligadas ao gás natural. 

Para além do nome, o gás natural é cheio de contradições. A indústria usa uma técnica extrema de extração chamada fraturamento hidráulico, ou fracking, na qual uma mistura tóxica de água, areia e produtos químicos é injetada no subsolo sob alta pressão para liberar gás e petróleo presos em formações geológicas. Ao mesmo tempo, onde petróleo é extraído usando a tecnologia de fracking, como na bacia de Bakken no estado da Dakota do Norte (EUA) – impactando as vidas e o sustento de Povos Indígenas – o gás natural não desejado é queimado (flaring).2 Impactos de perfuração e fracking sobre as comunidades incluem: impactos sobre a saúde por se viver perto de poços e estações de compressão; contaminação das águas, ar e solos; indução de terremotos; estradas engarrafadas e danificadas; mulheres Indígenas desaparecidas e assassinadas devido ao aparecimento de comunidades temporárias de trabalhadores em sua maioria do sexo masculino, conhecidas como “acampamentos de homens”; e outros impactos resultantes de uma economia altamente instável (boom and bust).

Exportar gás natural requer infraestrutura portuária e gasodutos. Gasodutos podem vazar, pegar fogo ou explodir. Ademais, empresas frequentemente recebem direitos de domínio iminente para tomar terras e construir gasodutos em Territórios Indígenas, quintais, sítios, locais sagrados e perto de escolas, passando por cima da vontade das comunidades. Antes de ser transportado, o gás precisa ser comprimido, tornado-se o volátil gás natural liquefeito (GNL), em estruturas portuárias perigosas. O GNL é metano comprimido e resfriado, que pode ser exportado em navios-tanque gigantescos. O transporte internacional de gás natural pode representar até 21% de suas emissões de gases do efeito estufa.3 

Outra crescente ameaça ao clima e à saúde de comunidades vem da venda do componente “molhado” (o gás natural é composto principalmente de metano, mas também inclui substâncias chamadas de gás molhado) do gás extraído por fracking para fábricas petroquímicas para a produção de plásticos descartáveis. Além de emissões enormes de gases do efeito estufa,4 as fábricas petroquímicas que produzem plásticos (i.e., crackers de etano) produzem quantidades gigantescas de poluentes perigosos para o ar, particulados, benzeno, tolueno e outras toxinas. Isso além de todos os impactos sanitários e ambientais da perfuração, fracking, transporte e descarte associados com a produção de plásticos. 

Gás natural: chegando a um subúrbio perto de você

A maior parte dos plásticos é feita para ser descartável. Eles permeiam cada aspecto de nossas vidas e causam danos que duram séculos. Microplásticos estão presentes na maior parte da água de torneira, em todos os oceanos, em nossos alimentos e em nossos corpos. Estudos recentes mostram que nós ingerimos plástico suficiente para fazer um cartão de crédito por semana!5 Além dos hidrocarbonetos usados para formular a resina, os plásticos contêm vários metais pesados e ftalatos que sabidamente são cancerígenos e disruptores endócrinos. A poluição por plásticos também representa uma séria ameaça aos ecossistemas oceânicos, com gigantescas massas remoinhosas de plástico em cada um dos oceanos do mundo, tais como a Grande Mancha de Lixo do Pacífico Norte.6 Embora a fabricação de plásticos consuma menos de 8% do petróleo do mundo,7 e apesar da crescente rejeição pública de plásticos de uso único, as grandes petroleiras estão de olho nos plásticos como a maior fonte de demanda nova nos próximos anos, investindo bilhões para garantir seu crescimento. 

Uma nova forma de maquiagem verde para as indústrias de petróleo e gás é o hidrogênio, que é muito propalado como uma fonte limpa de energia (ver Hidrogênio).  

Contudo, criar hidrogênio em sua forma pura na Terra requer tanta energia quanto ele fornece. É uma espécie de propaganda enganosa, na qual seus promotores falam sobre “hidrogênio verde” produzido com “energia renovável,” “hidrogênio cinza” derivado da queima de combustíveis fósseis e “hidrogênio azul”, onde as emissões de dióxido de carbono (CO2) da produção são capturadas e armazenadas (ver Hidrogênio e Captura de Carbono). No entanto, o hidrogênio é mais comumente produzido a partir de gás natural, dando à indústria mais uma desculpa para continuar perfurando e lucrando.8 

Em última instância, quando se examina as causas da mudança climática, as emissões de metano são altamente impactantes. Em comparação com o CO2, a metano é cerca de 86 vezes mais potente em termos de seu efeito imediato mas sai da atmosfera em cerca de 12 anos, ao passo que parte do CO2 emitido hoje ainda estará causando mudanças climáticas daqui a séculos.9 Porém, é no presente que nos deparamos com pontos de inflexão críticos. Não podemos nos dar ao luxo de ter mais emissões de metano aqui e agora, ou os impactos ambientais e de justiça climática que elas continuam a produzir, desde a extração até o transporte e os plásticos. 

Energy Justice Network: energyjustice.net/naturalgas

Indigenous Environmental Network: ienearth.org

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